Em um belo dia já não era mais suficiente sussurrar palavras.
Chegou um momento em que elas queriam ser grandes, inteiras, completas.
Elas faziam um trem de informações e a todo vapor forçavam para sair goela a cima.
Mas a boca espremia seus lábios e os dentes se encaixavam perfeitamente fazendo assim uma prisão perpétua.
Prisão perpétua para as idéias.
Mas as palavras eram fortes.
Elas queriam tanto sair que arquitetaram um plano.
Começaram a fazer o corpo todo ter vontade de falar.
Mas até o corpo se calava.
Mas a vontade era tanta, mas tanta que começou a incendiar o coração, esquentar a mente.
Mas os portões da prisão, mesmo assim, se mantinham firmes em seus propósitos de segurança.
Um dia, as palavras traçaram uma tática diferente.
Deixaram de incendiarar o corpo e ousaram um caminho diferente.
Melodia.
Uma melodia suave, incessante, interminável.
As cordas vocais eram tocadas como belas harpas e, mesmo com a prisão fechada do jeito que estava o som ecoava por dentro e se projetava para fora.
Num dado momento a boca não resistiu mais segurar-se fechada e abriu os portões.
Neste instante sairam tantas palavras... foi uma explosão!
Foi dito tudo aquilo que poderia.
Ultrapassou limites.
Quebrou vasos.
Estilhaçou espelhos.
Refrescou a dor.
E as palavras puderam finalmente se tornar grandes, completas, inteiras.
As idéias procriaram.
A boca, ela não ousou novamente fechar, ficou com medo.
E assim, o trem saiu e passou, terminando na cabeça de uns, no coração de outros e surgindo sempre do mesmo lugar.